Apuração manual de 1986: Arraes eleito governador com 1,587,726 votos
Coluna relata três semanas de contagem à mão no Clube Português, com fiscais, polícia e cédulas escritas à caneta.

Em 1986, Miguel Arraes, do PMDB, foi eleito governador de Pernambuco com 1.587.726 votos.
A apuração manual durou três semanas e começou dois dias após a eleição no Clube Português, perto do Tribunal Eleitoral.
Funcionários do Banco do Brasil foram convocados pelo Tribunal Eleitoral para contar cédula por cédula; a orientação era chegar às 7h30, reunir com o juiz e trabalhar em mesas enormes até as 17h.
As urnas eram transportadas pela Polícia Militar; o material era recolhido ao final do dia e levado ao Tribunal, voltando à contagem no dia seguinte.
O procedimento: primeiro votos para governador e senador, com nomes impressos; depois deputados federal e estadual, em que o eleitor escrevia o nome do candidato, sem números eleitorais.
Fiscais dos partidos cercavam as mesas; quando não havia consenso sobre a intenção do eleitor, o voto era anulado e colocado numa caixa especial; às vezes era preciso acionar a Polícia.
A rotina incluía jornadas das 7h30 ao meio-dia e das 14h às 17h, água, guaraná Fratelli Vita e sanduíches; cada dia trabalhado dava direito a dois dias de folga no Banco do Brasil.
O trabalho exigia alta concentração: contagens manuais provocavam cansaço mental e pequenos erros que poderiam alterar resultados.
1.587.726 — votos de Miguel Arraes (PMDB), eleito governador
1.018.800 — votos de José Múcio Monteiro (PFL), segundo colocado para governador
0,33% — votação de Jacob Nouri Tumajan, do PDT
Para o cargo de vice de Arraes foi eleito Carlos Wilson Campos; vice de José Múcio foi José Muniz.
Para o Senado foram eleitos Antônio Farias (PMB) e Mansueto de Lavor (PMDB).
Na Câmara dos Deputados, os mais votados foram Joaquim Francisco, Fernando Lyra, Roberto Freyre, Osvaldo Coelho, Paulo Marques e Inocêncio Oliveira.
Na Assembleia Legislativa, os mais votados foram João Coelho, Osvaldo Rabelo, Felipe Coelho, Geraldo Pinho Alves, José Aglaison e Manoel Ramos.
"Era óbvio que alguém da mesa tinha preenchido um voto em branco", lembrou o escrutinador sobre cédulas preenchidas em tinta vermelha, proibida para eleitores.
Hoje o resultado de uma eleição aparece em horas na TV e no celular; em 1986, era preciso esperar dias pela apuração.