Projeto lança segunda fase para ampliar acesso de cozinhas solidárias ao PAA no Nordeste
Oficinas visam facilitar inscrição de agricultores e lideranças nas oito unidades nordestinas onde o projeto atua.

Um projeto inicia a segunda fase com oficinas para facilitar o acesso de agricultores e cozinhas solidárias ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) no Nordeste.
O trabalho prático ocorrerá nas cidades Recife, Petrolina, Feira de Santana, João Pessoa, Natal, Fortaleza, São Luís, Maceió e Aracaju.
Cerca de 30 pesquisadores de oito estados do Nordeste (todos, exceto o Piauí) entrevistaram coordenadores de cozinhas, pessoas atendidas e agricultores ao longo dos últimos meses.
Os dados foram apresentados na zona rural de Moreno, na região metropolitana do Recife, por Manoela Huck, André Passos e Rafaela Ribeiro.
Na amostra, 72,8% dos atendidos pelas cozinhas são mulheres; a idade média é 43,8 anos; 75,1% vivem com menos de um salário mínimo; 54,5% estão desempregadas ou em trabalho informal.
No Brasil, 59,4% dos lares em insegurança alimentar têm mulher como chefe de família, diz o IBGE; na amostra 80% dos frequentadores estão em situação de fome.
Mais da metade enfrenta fome grave, percentual muito acima das médias de insegurança alimentar moderada e grave no Brasil (7,7%) e no Nordeste (10,9%).
O professor Jorge Mattos (UFRPE) disse que as cozinhas podem ter encontrado o “núcleo duro da fome” no Nordeste.
Dos atendidos, 76% vivem com outros familiares; metade dessas famílias tem crianças; um terço tem idosos; em média 50 crianças e adolescentes buscam marmitas por refeição.
A pesquisa identificou 18% de beneficiários que vivem sozinhos e usam a cozinha como suporte em situação de isolamento, informou Manoela Huck.
As cozinhas também oferecem atividades culturais, educativas e formativas, além de gerar pontos de encontro e acolhimento, observou o pesquisador André Passos.
A amostra mostra pouca diferença na situação alimentar entre trabalhadores informais e beneficiários do Bolsa Família; pessoas com trabalho formal têm maior segurança alimentar, disse Manoela Huck.
Agricultores rurais abastecem as cozinhas com frutas e tubérculos, especialmente batata, chuchu, inhame e cenoura, itens apontados como escassos nas refeições.
Rafaela Ribeiro explicou que muitos agricultores não conseguem cumprir exigências documentais, enfrentam analfabetismo e prazos curtos de edital para participar do PAA.
A Conab em Pernambuco, representada por Thays Queiroz, informou que as cozinhas foram incluídas na modalidade “compra com doação simultânea” do PAA, invertendo a lógica de contratação.
Thays Queiroz classificou como gratificante ajudar as cozinhas na região metropolitana, citou situações críticas de fome e reconheceu gargalos logísticos e estruturais.
O projeto é fruto de parceria entre Conab, Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) e a Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).