“Não gosto de política”. Mas reclamo de tudo
A frase virou símbolo de uma parcela do eleitorado que reclama do país, mas se recusa a entender quem toma as decisões

É triste ouvir o que quem está nas ruas distribuindo santinhos e colinhas encontra nesta reta final da campanha. A cada quatro pessoas abordadas, aproximadamente uma não aceita o material.
Algumas já têm candidato. Perfeito. Outras estão indignadas com a própria vida, com os impostos, a violência, a saúde, o emprego e o custo de viver.
Mas aí vem a pérola: “Eu não gosto de política”.
Não gosta de política, mas gosta de reclamar do imposto.
Não gosta de política, mas reclama do buraco, da fila no hospital, da falta de segurança, do preço da passagem e da escola ruim.
Tem ainda o inacreditável “eu não voto aqui”. Em eleição para governador, deputado, senador e presidente. A essa altura, não é falta de santinho. É falta de informação básica sobre como funciona uma eleição.
Recusar propaganda eleitoral é direito de qualquer cidadão. O preocupante é transformar desinformação em orgulho e desinteresse em virtude.
Tem gente que sabe quem terminou o relacionamento com quem, acompanha a vida de celebridades, conhece cada fofoca das redes sociais e passa horas assistindo bobagens. Mas não sabe quem está disputando o poder para decidir sobre bilhões de reais e questões que vão interferir diretamente na sua vida.
Depois da eleição, entretanto, reclama.
Política pode ser chata. Pode decepcionar. Pode revoltar.
Só não pode ser ignorada como se não tivesse nada a ver com você.
Porque enquanto você diz “não gosto de política”, a política continua decidindo a sua vida.
E alguém escolhe por você.