Brasil pagou R$ 867 bilhões em juros em 2025; há alternativa à pressão sobre o BC
Com Selic alta e mais da metade da dívida indexada a ela, reduzir crédito direcionado e o spread bancário pode baixar a conta sem ferir a autonomia do Banco Central.

O governo federal pagou R$ 867 bilhões em juros em 2025, o equivalente a 6,8% do PIB.
Cada ponto percentual a menos na Selic reduziria a conta de juros em cerca de R$ 41,6 bilhões por ano; uma Selic em nível da África do Sul (~7%) pouparia cerca de R$ 278 bilhões anuais.
Em 2025 o deficit primário foi de R$ 57,8 bilhões (0,45% do PIB); mais de 90% do deficit nominal veio do custo de financiar a dívida.
Após o corte de 16 de setembro, decidido pelo Copom, a Selic está em 13,75% ao ano; com inflação de 4,22% em 12 meses, o juro real é cerca de 9,1% ao ano.
A parcela da dívida mobiliária federal indexada à Selic superou 50% no fim de 2025 e alcançou 53% em julho de 2026, o maior nível em cerca de 20 anos.
Desde 2023 a inflação varia entre 3% e 6% ao ano, e o crescimento do PIB gira em torno de 3% ao ano, níveis que não justificam sozinhos uma Selic tão alta.
Estudo do FMI e estimativas históricas explicam a cautela: crédito direcionado responde pouco à Selic e reduz a transmissão da política monetária.
Estimativas com dados de 2012 a 2024 mostram assimetria na reação: +1 p.p. na Selic associa-se a −1 p.p. de inflação nos quatro meses seguintes; −1 p.p. na Selic associa-se a +3,7 p.p. de inflação um ano depois.
R$ 867 bilhões — juros pagos em 2025
6,8% do PIB — o valor dos juros em 2025
R$ 57,8 bilhões — deficit primário em 2025 (0,45% do PIB)
13,75% — Selic após corte de 16 de setembro
4,22% — inflação em 12 meses usada no cálculo do juro real
53% — parcela da dívida atrelada à Selic em julho de 2026
R$ 41,6 bilhões — redução anual na conta de juros por cada p.p. a menos na Selic
R$ 278 bilhões — economia anual se a Selic caísse para ~7%
Reduzir o peso do crédito direcionado e atacar o spread bancário, por exemplo aumentando concorrência, permitiria ao Banco Central operar com Selic mais baixa sem perda de autonomia.
A próxima etapa concreta é debater medidas específicas para a transmissão da política monetária, como mudanças nas regras do crédito direcionado e políticas para reduzir o spread bancário.
Marina da Silva Rapp é doutoranda na Universidade de Heidelberg, na Alemanha.